Lautrec
redescoberto por Nina Vogel

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“…servir de instrumento para animar, dar o sopro de vida que permite outras formas existir, e isso mudou a minha trajetória artística e consequentemente a minha vida.” Nina Vogel.

A atriz, e cantora lírica Nina Vogel  brindará os palcos do 11º FITA com a  reconstrução poética da vida do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). Este pintor, é reconhecido por  retratar a boemia parisiense de sua época, o  séc. XIX.  Vogel, da vida a Lautrec através de um boneco de proporções humanas, que utiliza braços e pernas da atriz para reviver em cada espetáculo um encontro singular com o público.

A performance, Redescobrindo Lautrec, voltado para o público infantil e o espetáculo Um encontro com Lautrec, para o público adulto, remetem a uma polifonia compositiva tanto no que se refere a sua instancia musical, rítmica como em sua dinâmica compositiva, ao reunir  fragmentos líricos, dramáticos e cômicos da vida do pintor.

Nina Vogel compartilha com  o 11º  FITA um pouco de sua experiência profissional:

Você poderia contar como foi seu primeiro encontro com Lautrec?

Meu primeiro encontro com Lautrec foi ainda na infância. Tenho a lembrança de meu pai me mostrando um livro com os desenhos e obras dele e me contando que era seu pintor favorito. Mais tarde, escolhendo um tema para objeto do TCC na faculdade de teatro, deparei-me com esse livro na estante de casa e a partir daí mergulhei no universo dele e da efervescência artística e cultural da época.

Que influências, nacionais ou estrangeiras, tanto na música como no teatro de animação de alguma maneira impulsionaram  sua forma de trabalho?

Como cresci numa casa onde a música e a arte sempre estiveram presentes, pois minha mãe era professora de piano, tivemos contato desde cedo com influências culturais diversas. Aos 5 anos de idade, sendo autodidata, iniciei o aprendizado na língua francesa e isso permitiu uma proximidade maior com a cultura francesa pela qual sempre tive um encantamento especial, algo realmente inexplicável, não tendo origens francesas na família. A França tem forte tradição no teatro de animação, mas como influência nesta área, cito a profunda admiração pelo trabalho dos artistas brasileiros Duda Paiva e a Cie Dos à Deux.

Como surgiu seu interesse pelo teatro de animação? Conte-nos um pouco sobre sua trajetória;

Minha formação artística é bem interdisciplinar, primeiramente uma formação musical erudita forte e posteriormente teatral, mas sinceramente nunca imaginei trabalhar com teatro de animação, até assistir em 2014 a peça Irmãos de Sangue da Cie Dos à Deux, na qual havia uma marionete em escala humana. Em 2015, curiosamente fui selecionada para uma residência artística de 2 meses no Chile, dirigida pela artista plástica russa que confecciona os bonecos da companhia, para justamente criar uma marionete em escala humana do pintor Toulouse-Lautrec. Essa imersão profunda, intensa e por vezes até dolorida, natural do processo de aceitarmos de sair da zona de conforto e nos depararmos com um universo totalmente desconhecido, me permitiu fazer uma experiência única: servir de instrumento para animar, dar o sopro de vida que permite outras formas existir, e isso mudou a minha trajetória artística e consequentemente a minha vida. A partir de então, participei de inúmeros festivais e tendo a oportunidade de conviver com grandes artistas bonequeiros, percebo, com humildade, que o universo dos bonecos é imenso e generoso e há muito a explorar e tudo ainda a aprender. Me sinto honrada e agradeço por ter sido iniciada nesta arte.

-Você poderia falar sobre o processo criativo de Uma Noite com Lautrec e Redescobrindo Lautrec?

O processo criativo iniciou há 5 anos, como pesquisa acadêmica, na qual eu interpretava 4 mulheres vedetes da belle-époque e o próprio Toulouse- Lautrec, mas não me sentia satisfeita em “interpretá-lo”. Tinha a sensação de que faltava algo. A marionete em escala humana do pintor só surgiu em 2015 e muito treino e muita repetição foram necessários para começar aos poucos a sentir como é compartilhar o mesmo corpo de um outro ser, ainda que inanimado, o que deu novo rumo ao processo criativo. Ao longo deste período teve uma passagem pela França e a temporada no Chile e o processo apresentou então um conflito: a dificuldade de harmonizar o teatro de palavras com novas imagens que foram surgindo e com a música.

A performance Redescobrindo Lautrec acontece essencialmente a partir da interação com o público e a conexão com o pintor, dá-se principalmente com as crianças, por meio do desenho. Há a presença do acordeonista cego, cuja música ao vivo funciona como uma espécie de complemento ao pintor que não fala, mas cujos olhos são vivos e brilhantes. Presenciei momentos realmente tocantes, especialmente neste festival, onde me dei conta de que jamais teremos realmente noção da dimensão do impacto causado na vida e no imaginário de uma criança depois de uma experiência de interação com os bonecos.

Já a peça Uma Noite com Lautrec passou por grandes alterações, com mais formas animadas ao invés de somente mostrar as personagens por meio da interpretação. Aos poucos uma colagem entre as histórias e imagens destas mulheres foi sendo criada e compondo a história de vida do pintor. Como artista pesquisadora independente, minha busca é a dissolução das fronteiras entre todas essas linguagens e esse talvez seja o maior desafio. A poesia é a mágica do instante e não um produto acabado. O teatro me ensinou isso.  Muita ousadia e coragem são necessárias para se arriscar por caminhos nunca antes navegados, por isso considero que ainda estamos no processo. A travessia apenas começou e há muitos portos a serem viajados e muitas noites a serem vividas com Lautrec!

Para saber mais: https://www.youtube.com/watch?v=z_6EyngILvk , https://ninavogelart.wordpress.com/

 

 

 

 

 

 

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