Cia Sombreiro Andante (RJ) inspira-se em conto africano

Ananse e o baú de histórias, do Coletivo Cênico Sombreiro Andante -Rio de Janeiro. FITA 2017_Foto-Amanda Moleta-5 (2)

 

A Cia Sombreiro Andante do Rio de Janeiro estará no 11º FITA com o espetáculo Ananse e o baú de histórias, inspirado no conto africano de mesmo nome. Seres fantásticos e a magia do mundo animal são apresentados numa estética multifacética onde se entrelaçam o teatro de sombras – que utiliza silhuetas com vários recursos, além do corpo do ator- o canto, a dança, a música, e a contação de histórias. A reinvenção dessa história, de matriz africana, trata da importância de manter vivas as tradições afro-brasileiras e, ao mesmo tempo, mostrar o papel da tradição  como recurso para a construção de novos significados e o estímulo a criatividade no teatro de animação contemporâneo.

Nesta entrevista o diretor Gilson Motta nos aproxima de uma parte das chaves do espetáculo.

Você poderia contar um pouco como foi o processo de adaptação do conto  para o teatro de formas animadas?

Julgamos que as histórias de Ananse possuem um potencial para a linguagem das sombras pelo fato de a sombra nos remeter a um elemento arcaico, misterioso e ä ancestralidade. Ao lermos as historias de Ananse e pensarmos na adaptação, buscamos fugir da representação estereotipada da África e, para tanto, buscamos explorar uma estética influenciada pelo psicodelismo africano e pela cultura afro-brasileira.

O processo criativo tomou como base o desenho, isto eh, a realização de um story board, com algumas sugestões de cenas e dinâmicas de jogos de atores. Estas ideias eram levadas para a sala de ensaio e passavam por um processo de transformação ou reinvenção, a partir do contato com os atores. A historia central foi dividida em unidades/partes, cada uma sugerindo um tipo de abordagem técnica e uma forma de jogo dos atores com as silhuetas. A partir dessa divisão construímos as cenas.

Um elemento de destaque no espetáculo é a linguagem das sombras. Qual o papel do teatro de sombras em uma sociedade caracterizada cada vez mais pelo fluxo crescente de mensagens cuja natureza é predominantemente audiovisual e espetacularizada?

As sombras remetem a um tempo contemplativo. A imersão no tempo da sombra implica uma percepção diferenciada da realidade. O teatro de sombras tem um papel fundamental nesse processo de transformação da sensibilidade do espectador.

Outro elemento de destaque no espetáculo é a figura do contador de histórias, aquele que mantém viva a tradição oral. Que lugar ocupa e qual a importância do contador de histórias hoje diante do retrocesso e deterioração da oralidade oferecida pelas novas tecnologias?

O papel do contador de historias eh resgatar a oralidade, valorizar a comunhão, o encontro com os ouvintes. O contador valoriza o imaginário por intermédio da palavra. O espetáculo eh construído na conciliação da contação de historias com a projeção das sombras.

– Que qualidades técnicas são fundamentais para ser um bom contador de histórias?  

Presença cênica. Disponibilidade para o ouvinte/outro. No que se refere a técnica julgamos necessários a capacidade de modulação da voz, percepção do ritmo da história a ser contada, assim como a musicalidade das palavras.

O espetáculo nos desperta para a sabedoria ou a cosmovisão das tradições africanas e para o tema do multiculturalismo. Como você vê o tratamento desta temática no teatro brasileiro atual? Você poderia nos lembrar de alguns nomes de grupos teatrais que hoje vêm trabalhando o tema?

 Julgamos improprio falar de cosmovisão africana, pois, como eh do conhecimento de todos, existem diversas culturas africanas. Nosso recorte se da na cultura ashanti. E, neste processo, nos colocamos apenas como contadores de uma historia da cultura ashanti, historia esta que possui valores transistóricos ou transculturais, visto que lida com uma figura arquetípica, a saber, a figura do TRICKSTER. Nosso posicionamento eh apenas o de contar uma historia africana/ashanti. E, para tanto, usamos de recursos cênicos e teatrais da cultura afro-brasileira, presentes na musica, nas imagens e no jogo cênico. O elemento narrativo nos distancia dos personagens. O recurso a sombra nos coloca numa posição igualmente distanciada.

 

 

 

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