Cia Laica no FITA: confira entrevista com diretor de Vozes do Abrigo

Vozes do abrigo, da Cia. LAICA – Curitiba-PR. FITA 2017

 

 “Crianças de abrigos são como sementes plantadas no vento, são como sonhos esperando serem sonhadas”. Fábio Nunes Medeiros

 

A Cia. Laica de Curitiba/PR trará aos palcos do 11º FITA o espetáculo Vozes de Abrigo, que toma como matéria prima histórias reais e fictícias de crianças de abrigos. No espetáculo, essas histórias são reconstruídas através de metáforas e da imaginação infantil propostas em cena pelo gênero dramático-musical, onde as ações combinam música, canto, coreografia, diálogos e a linguagem do teatro de animação, como a manipulação direta de bonecos e sombras.

O diretor Fábio Nunes Medeiros compartilha com o FITA um pouco de sua experiência:

-Você poderia começar contando um pouco sobre a trajetória do grupo?

A Companhia surgiu em 2015 com o objetivo investigar e experimentar técnicas e estéticas da arte da animação (teatro de animação e cinema de animação), a partir do agrupamento de artistas independentes e com experiências variadas em diversas linguagens artísticas, tais como artes visuais, artes cênicas, animação e cinema, para que desse o caráter híbrido aos trabalhos. É um grupo de iniciativa mista em termos institucionais, de característica itinerante, que se utiliza de instrumentos acadêmicos e não acadêmicos em seus processos, bem como sua sede varia conforme o desenvolvimento projetual. Ou seja, os projetos é que agregam as pessoas e suas experiências. Em 2016, montamos o musical Vozes de Abrigo e pudemos congregar muitas dessas confluências e experiências dos integrantes. Atualmente estamos montando mais dois espetáculos que tem alguns integrantes desse elenco, mas também com novos artistas.

– O que o levou a eleger um drama-musical para tratar do tema do abandono infantil?

A encenação tem como base as linguagens do teatro de animação e do espetáculo dramático musical, partindo da premissa de que o teatro de animação é uma expressão direta da percepção da criança e o canto é uma linguagem que atravessa vários sentidos da percepção humana e tem como principal meio a voz, tanto no sentido literal quanto metafórico. Assim sendo, essa duas formas de expressão são os alicerces da montagem.

  –Poderias contar como foi o processo criativo de Vozes de Abrigo tanto na dramaturgia quanto na cena?

Em termos de uma dramaturgia tradicional, foi bem delicado escrever a peça, especialmente pelo fato do peso da incidência do real, pois muitas das histórias têm como fonte fatos reais, inclusive autobiográficos. Mas também esse processo de reviver a história do outro abre caminhos para várias reflexões, especialmente sobre nossa responsabilidade perante o coletivo, para que percebamos que não estávamos sós no mundo. Esse rio de histórias ‘paralelas’ que muitas vezes corre do nosso lado, mas que não conhecemos ou não olhamos por opção, é o rio de nossa história também, enquanto seres humanos. Agora do ponto de vista do levantamento das cenas, da peça em si, a contribuição de toda equipe foi excepcional. O diretor musical, sempre digo, ele atravessou as minhas proposições. Os atores e equipe visual deram todo o tom e sentido a tudo que o texto escrito por si não faz. Enfim, esse trabalho, posso dizer com convicção, é fruto de muitos abraços.

-Que influencias locais, nacionais ou estrangeiras  em matéria de leituras ou espetáculos assistidos, de alguma maneira lhe influenciaram ou marcam um caminho em direção a sua forma de trabalho?

Conscientemente não consigo te dizer sobre nenhuma referência estética objetivamente. Mas em termos de linguagens artísticas, gosto muito de cantigas populares, dos contadores de histórias, de artes visuais, de cinema de animação… Não sei mesmo. Ah, quando eu escrevia o texto, em todo momento durante essa fase eu ouvia a trilha sonoro do filme francês Les Choristes de Christophe Barratier (traduzido para o Brasil como A voz do coração). E, inclusive faço uma homenagem ao filme numa cena (aviõezinhos).

Você percebe que Vozes de Abrigo tem alcance a um público determinado? O que lhe interessa despertar no público com este espetáculo?

Não, talvez não seja para crianças muito pequenas. Hoje recomendamos para crianças acima de 10 anos, mas é uma recomendação apenas. Entendemos que o espetáculo tem várias camadas e vão chegar diferentemente para cada espectador. Tivemos a   experiências de país chorarem e crianças rirem na mesma cena.  E no que se refere ao nosso interesse em desertar no público, acho que É OLHAR O OUTRO, OLHAR PARA O LADO. E que se provocarmos a ideia de que os laços afetivos são mais duradouros que outros laços, será interessante também.

 

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