Duda Paiva, diretor de Blind, fala de sua trajetória no teatro de animação

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“Sangue que correm em veias de espuma”, essa expressão define bem o que sinto quando manipulo um boneco feito de espuma” Duda Paiva.

O renomado bailarino, ator, diretor e bonequeiro goiano Duda Paiva chegará à Florianópolis esta semana para apresentar, no 11º FITA, o seu espetáculo Blind. Nele, Paiva transforma em poesia cênica uma de suas experiências de infância. Quando menino, vivendo no Brasil, sofreu uma enfermidade que o deixou temporalmente cego.  Essa experiência é reelaborada através de uma interface de linguagens como dança, teatro, manipulação de bonecos, adaptações de canções afro-brasileiras, etc. O artista multifacético, comparte corpo e alma, ou seja, “dá vida” aos bonecos através de movimentos intensos e uma apurada manipulação, sempre alimentada pela interação direta com o público.

Em Blind, se vê refletida a cegueira, o encontro com a escuridão, o medo, a busca pela cura e a auto-purificação.  Ao mesmo tempo, a cegueira como metáfora transcende a experiência pessoal do artista ou a qualquer temporalidade específica,  para trazer a baila uma reflexão sobre a importância de encontrar no caos ou na escuridão formas de reconstruir o olhar, a visão.

Antes de sua chegada a Floripa Duda Paiva nos respondeu algumas perguntas sobre seu trabalho com o teatro de formas animadas.

-Você tem uma sólida trajetória em dança. Em 1998 você iniciou seus estudos com a animação de bonecos na companhia Gertrude Theater de Israel e Neville Tranter na Holanda. O que o impulsionou a investigar essa prática?

Minha primeira experiência com o mundo dos bonecos foi quando dançava para o coreógrafo Itzik Galili, nome conhecido no mundo da dança. Ele convidou o grupo, também de Israel, Gertrude Theater a realizar uma colaboração. O show nunca chegou a um resultado final pela dicotomia das duas disciplinas e a falta de tempo. Porém, foi o bastante para mudar minha vida totalmente. Naquele período, eu trabalhava como bailarino e andava questionando meu papel como bailarino e como artista em geral. A dança na Europa passava por um processo de conceptualização profundo e eu me desidentificava mais e mais desse processo. Enfim, chegaram os bonecos com um impulso de “vida” que reascenderam o meu próprio. Aos poucos trabalhei mais profundamente com o Gertrude Theater e Neville Tranter que me apadrinharam. Eles foram meus professores e grandes inspiradores por um bom tempo. Já em 2004 fundei a DPC Dudapaiva Company e com ela o interesse em pesquisar um método próprio de manipulação de dialogo entre homem e coisa. Esse método se chama “ A Pontuação do Objeto”. Um método que ensino em Universidades e Festivais.

Esse exercício é  um lugar excitante para o ator, bailarino ou cantor, ou seja, a execução de um dialogo poético , sendo por texto ou pela fiscalidade para dois corpos sob o comando de uma só matriz: a mente do performer.

-Você poderia falar um pouco sobre seu método “A Pontuação do Objeto”?

Em breve descrição a metodologia do curso “A Pontuação do Objeto”,  é divida em exercícios didáticos de consciência física, manipulação de bonecos, integração, improvisação.

A consciência física se relaciona a aulas de dança contemporânea, dança moderna, ballet, pilates, fletcher, gyronotics. A manipulação de bonecos, ligada ao foco, intenção, ritmo, voz, coordenação, respiração. O reconhecimento das entradas de ar nas juntas do corpo: palma das mãos, punho, juntas das mãos e pés, virilhas e joelhos e a Integração dos corpos objeto e performer, a junção hibrida esquizofrênica, do corpo do manipulador e o corpo do boneco através de impulsos coreográficos para dois corpos vindos de uma só matriz, a mente do manipulador/ator. O toque poético e o RA são exercícios que modificam estruturas analógicas de organização do corpo e do gesto, que são base para a constituição de metáforas presentes na mente e corpo dos artistas cênicos, e que podem fazer com que estes construam seus argumentos corporais e poesias de forma consistente servindo de ponte entre homem e coisa (boneco).

– Seus bonecos são esculpidos por você mesmo. Poderia nos contar um pouco sobre o processo de criação dos bonecos de Blind?

O processo de criar um boneco, ou podemos o chamar de escultura que move também, ajuda o performer a ter mais intimidade com ele. Dentro do DudaPaiva Atelier, ensino escultores que podem ser cenógrafos ou bailarinos a confeccionarem tais seres. O material é uma espuma elástica e leve que possibilita um leque de expressividade que nenhum outro material provem.

-Em Blind, ator e boneco interagem diretamente com o público, construindo diálogos e revelando imagens completamente inesperadas. Conte-nos um pouco como o público vêm respondendo a esta interação?

Desde 2004 venho formando um público específico na Holanda e outros países. O nicho desse croos-art-form conta com um número cada vez mais expressivo de artistas multidisciplinares. Procuro a cada projeto que faço estabelecer um contato mais intimo com o público tendo o boneco como ponte entre ele e o performer. Os bonecos precisam do público para viver. Venho observando essa “necessidade urgente “ dos bonecos e procuro viabilizar um plateau vivente onde eles possam se manifestar perante os olhos curiosos da plateia.

-Entre os prêmios e homenagens que você vem recebendo está o título de “Artista de Honra” recebido durante o Festival Mondial des Theatres des Marionnettes de Charleville-Mézières, em 2015 na França. Como vem se refletindo este reconhecimento em seu trabalho?

Traz  maior visibilidade para o idioma multidisciplinar onde as formas animadas tem prioridade, tende a ser um desafio intenso. O teatro de bonecos (principalmente para adultos) sofre de um preconceito que vem de décadas atrás. Teatro de Formas Animadas raramente é apresentado em festivais de teatro Contemporâneo, por exemplo. A DPC tem o intuito de abrir portas de acesso em festivais mais conceituados e vem fazendo isso desde o inicio de sua estreia. Com o projeto BLIND estamos quebrando essas barreiras com passos miúdos , porém, constantes. Vamos ao La Mama em NY, fomos ao festival de Wuzhen na China e estamos preparando uma turnê extensa em países da Ásia. Dentre as homenagens de honra estão os prêmios de Artista Revelação na Holanda (stipendium Prins Bernard Fonds)2011. Artista Revelação Iternacional na Itália em 2012. Uma boa notícia para a DPC este ano foi a seleção da companhia com um subsidio estrutural de quatro anos, uma grande conquista pra nós.

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